Desenvolvimento do Remo em Portugal
Portugal encontra-se rodeado na sua maioria pelo Oceano Atlântico e por inúmeros rios que desaguam neste mesmo Oceano. Estas características facilitam a prática de actividades desportivas náuticas, como é o caso do Remo, pois um país ancestralmente ligado à água e tradicionalmente marinheiro, não podia deixar de praticar este tipo de desporto.
No período posterior à Revolução Industrial a Inglaterra assistiu a um período de proliferação da prática da modalidade, com a sua difusão às Universidades e organização de sucessivas regatas. Paralelamente, Portugal atravessava um período de Guerra Civil e assistiu, tal como no primeiro, à prática do remo, como um dos seus primeiros desportos, embora com grande desfasamento no tempo.
Das principais causas encontradas para este atraso, encontra-se a já referida guerra e a ausência da prática de Educação Física na população.
A Guerra Civil termina em 1834 e sucedem-se revoluções, golpes, revoltas populares e a ruína financeira derivada da sua necessidade de financiamento. Apenas a partir do ano de 1840, Portugal obteve alguma estabilidade económica e social, sob o Reinado de D. Maria II.
Durante este período, as actividades náuticas baseavam-se na actuação da Armada Real e de alguns passeios náuticos levados a cabo pela Nobreza, inclusive os da Rainha D. Maria I, pelo rio Tejo. De referir, que nesta altura os passeios a barco eram encarados pela aristocracia, como um escape à vida rotineira das cidades.
Durante e nos anos que sucederam a Guerra Civil, instalou-se em Portugal uma colónia numerosa de ingleses, desenvolvendo aqui a sua influência industrial, comercial e cultural. A estes de deveu a introdução, entre outras modalidades desportivas, do remo em Portugal.
Lisboa
Conferimos, através da nossa análise aos registos de ocorrência de regatas em Portugal, que existiu a primeira “carreira de barcos”, em 1850, de organização totalmente britânica, englobando 5 caíques. Segundo os autores, o remo acompanhou sempre a vela, embora em segundo plano e as regatas posteriores referem a inclusão efectiva de guigas de 4, 6 e até mesmo de um remador, o que nos leva a concluir que esta corrida de barcos englobasse também guigas a remos.
Três anos volvidos, organiza-se por intermédio do Conde de Alcáçovas, por ocasião das festas da praia de Paço D’Arcos, um festival náutico. Apadrinhado pelo Infante D. Luís, incluiu guigas para amadores e profissionais e uma corrida de remos entre escaleres de um navio de guerra inglês e a Marinha Real Portuguesa.
Em setembro de 1854, aparece a “Regata do Tejo”, como a primeira com programa e regulamento impresso. Durante os anos que se seguiram, no mesmo mês, Paço D’Arcos foi animada pela realização destas regatas.
O fomento da prática levada a cabo pelas personalidades já referidas, levou a que, em 6 de Abril de 1856, fosse fundada a Real Associação Naval (RAN), actual Associação Naval de Lisboa (ANL). A primeira Assembleia Geral da RAN, foi constituída pelo Infante D. Luis como Presidente e pelos propulsores do Remo em Portugal, Abel Power Dagge, o Conde de Alcáçovas e H.F. Moser. Esta constituiu a mais antiga associação da Península Ibérica e um dos trinta clubes mais antigos da Europa
Entretanto, Paço D’Arcos continuou no seu auge e assistiu no ano de 1858, agora por intermédio da RAN, a um festival que contava com 33 tripulações de Vela e Remo.
A influência estrangeira continua latente na prática e organização de desportos náuticos, pelo que, novamente Abel Power Dagge, entre outros, competiam em 1861, com a Lusitania, contra algumas personalidades da colónia alemã no país, que remavam na Germania
Esta disputa levou à formação no ano de 1861, na cidade de Lisboa, de dois clubes com a modalidade exclusiva de Remo, o Tagus Rowing Club e o Club dos Remeiros Lusitanos
Por esta altura, o Remo consegue ter mais popularidade no seio da população, porque para além das suas regatas serem de melhor visualização das margens dos rios, havia maior possibilidade de incluir nas competições, camadas mais humildes da população.
A criação de clubes de remo e o aumento da sua popularidade levaram a que a RAN autorizasse a reunião nas suas instalações, no ano de 1982, de um grupo de remadores, com o intuito do desenvolvimento da modalidade, no entanto, esta decisão não foi pacífica dentro da Associação, como iremos ver mais à frente.
O primeiro Campeonato português de remo, data do ano de 1884, quando os elementos dos primeiros clubes deste desporto, o Tagus Rowing Club e o Club dos Remeiros Lusitanos, se juntam e dão origem ao Rowing Club de Lisboa. Este Campeonato institui como prémio uma medalha de ouro.
Este Clube teve um prazo de vida curto e termina com a compra, no ano de 1890, pelos alunos da Escola Naval, do seu espólio, dando início ao Club dos Aspirantes da Marinha.
A extinção do Rowing Club, deu origem com praticamente os mesmos fundadores, em 1 de Novembro de 1891, ao Real Club Naval de Lisboa, e veio dinamizar muito o Remo português.
Se, até então, os membros da RAN se mostravam muito relutantes na criação de uma Secção de Remo, justificando com os elevados encargos financeiros aderentes à aquisição e conservação dos barcos de remo e pela tradição do desporto de Vela no seio da Associação, a criação do Real Club Naval de Lisboa veio resolver este impasse e criou-se em 1893, a dita Secção de Remo. Esse mesmo ano, ficou marcado pelo falecimento de Abel Power Dagge, que acumulou 37 anos de vida como tesoureiro da ANL e foi fundador de quase todos os clubes náuticos em Lisboa.
Porto
Paralelamente à evolução da história do Remo em Lisboa, o início da sua prática no Porto, deve-se à existência da colónia britânica nessa zona, que em 1868, funda o Real Club Naval Portuense, sob a presidência de El Rei D. Luis e um grupo de cinco ingleses
A organização da primeira regata em 20 de Julho de 1875 e da segunda em 25 de Maio de 1876, incrementa o entusiasmo popular face à modalidade nesta cidade, e em 4 de Novembro de 1876, iniciou actividade o Clube Fluvial Portuense, que passou a ter designação de “Real” a partir de 1881.
O Real Clube Fluvial Portuense (RCFP) nasceu e começou a organizar regatas, cortejos fluviais, travessias a nado, jogos de pólo aquático e assistência nos socorros a náufragos.
Os primeiros out-riggers chegam ao Porto, por encomenda dos Srs. Hickei e Mitchel, no ano de 1878. Estes barcos proporcionaram disputas mais acesas entre os clubes de Lisboa e Porto, o que intensificou a rivalidade entre as duas cidades.
A morte do rei D. Luis, no ano de 1891, leva a que, por intermédio dos cinco fundadores ingleses, o Real Clube Naval Portuense se passe a designar Oporto Rowing Club
De referir, que no ano de 1904, a cidade do Porto viu surgir mais um clube desta modalidade, o Sport Club do Porto, que ainda hoje vive, e foi um dos seis clubes que viria mais tarde a fundar a Federação Nacional de Remo.
Actualmente o RCFP, possui um patrocínio que os seus directores angariaram, ao qual mudaram o seu nome, introduzindo o respectivo patrocínio, ao qual ficou, SKODA – Real Clube Fluvial Portuense.
Figueira da Foz
A cidade da Figueira da Foz, desempenhou também um papel importante no desenvolvimento do Remo em Portugal. Nos dias de hoje, é de conhecimento corrente dos portugueses a existência da Associação Naval 1º de Maio, estando esta associada à cidade.
Através do nosso estudo, verificamos que precedeu a esta Associação uma outra, pioneira na prática de desportos náuticos naquela localidade, a Associação Naval Figueirense. Esta era constituída pelos mais altos dirigentes e capitalistas da cidade e constituía o seu compromisso, a construção e navegação de barcos de recreio e a promoção de regatas de remo. Desta associação salienta-se, a organização de uma ou outra regata esporádica, nomeadamente a de 1883. No entanto, já em crise, os esforços de reorganização nos anos posteriores, não a salvaram da extinção em poucos anos.
Assim, Figueira da Foz, viu surgir uma agremiação inédita. Se até então, os membros das associações de desportos náuticos eram aristocratas e de alta burguesia, aparece a Associação Naval 1º de Maio, formada exclusivamente pela “classe operária”, em 1 de Maio de 1893, à qual passou a pertencer a responsabilidade pela dinamização do desporto náutico da zona.
O seu desenvolvimento deu origem à existência de alguns sócios mais abastados, gerando rivalidades na tomada de decisões, o que implicou a saída destes, que fundaram o Ginásio Club Figueirense, de designação inicial, Club Ginástico Velocipédico, em 1895
Inicia-se a rivalidade entre os dois clubes da Figueira da Foz, que fica eternizada pela disputa da Taça Alzira, competição que deu verdadeiramente alma ao remo naquela cidade, entre os anos de 1911 e 1922.
Das principais taças disputadas desta cidade, destacamos a Taça Mondego, a Taça Alzira, Taça Salazar e a Taça Vitória. Mas mais à frente iremos analisar as principais regatas, assim como, os principais trofeus que eram disputados em Portugal.
Os principais clubes que foram criados e que sobreviveram, tentaram por diversas vezes estruturar o Remo nacional. Estes clubes que analisamos agora e responsáveis pelos primeiros anos do Remo em Portugal, foram os fundadores da Federação Nacional de Remo em 1920, que actualmente designa-se por Federação Portuguesa de Remo.
Principais troféus que existiram em Portugal
O desporto náutico entra numa época de ascensão, em finais do século XIX, devido ao aparecimento de novos barcos, aumento de sócios e realização de novas regatas e eventos náuticos, são exemplo, as regatas de Paço d’ Arcos e as regatas de Cascais, nomeadamente, as realizadas em Setembro de 1901, por comemoração do aniversário do rei D. Carlos e rainha Dona Amélia, repetindo-se nos anos seguintes.
As regatas eram cada vez mais frequentes, agrupando já vários clubes e cidades. Entre estes, referimos a competição da famosa Taça Lisboa, oferecida pelo rei D. Carlos, no ano de 1904 e que deveria ser disputada no Campeonato Nacional de Remo. Esta taça, apesar de continuar nos nossos dias, não o é na forma de Campeonato Nacional
Seguidamente, na história dos trofeus mais importantes, referimos a Taça Mondego, no ano de 1908, promovida pelo Ginásio Club Figueirense (Figueira da Foz) e disputada em Yolle de 4 remos, sob a forma de Campeonato Nacional. Desta localidade destaca-se também a organização da Taça Alzira, que se iniciou no ano de 1911 e se prolongou até ao ano de 1922, à qual assistia praticamente toda a cidade pela grande rivalidade gerada entre os dois clubes que a disputavam, a A.N. 1º de Maio e o Ginásio. Foi considerado o trofeu que deu verdadeira vida à cidade de Figueira da Foz apesar de o ser em dimensões reduzidas (local).
Nesse mesmo ano, competiram em guigas de 4 e 6 remos os dois clubes que tinham o epíteto de Real pela Taça 5 de Outubro (a Real Associação Naval e o Real Club Naval de Lisboa), criada para comemoração do aniversário da Implantação da Republica. Após a fundação da FPR, em 1920, esta deliberou que a Taça deveria ser disputada no Campeonato Regional do Sul.
Em 1919, os Representantes das Nações Aliadas, oferecem à Associação Naval 1º de Maio, a Taça da Vitória, que tinha que ser disputada em forma de Campeonato Internacional de Remo e foi considerado o Trofeu mais valioso em Portugal. A Taça da Vitória foi disputada como uma prova internacional, por intermédio da Câmara Municipal da Figueira da Foz. De referir que, tripulações de Inglaterra, Holanda, Alemanha, França, Espanha e Bélgica já a haviam disputado e haviam competido com alguns dos clubes portugueses da época, como por exemplo, a ANL e a AN1º de Maio. Era um dos troféus mais ricos disputado em toda a Europa, não havendo dados concretos sobre o seu início, apenas com a referência do período da 1ª Guerra Mundial. Os clubes portugueses nunca ganharam a referida Taça, sendo os ingleses a dominam quase por completo, com o maior número de vitórias. Esta encontra-se, actualmente no Museu Municipal da Figueira da Foz.
Verificamos que a maior parte destes troféus já não se disputam, sendo que, actualmente os mais valorizados são os Campeonatos Nacionais organizados pela F.P.R. e a Taça Presidente da República.
Quanto aos locais da realização destas regatas, actualmente disputam-se pelo país inteiro e vamos ver no gráfico seguinte quais as regiões onde se organizam regatas de remo.
Desde o aparecimento do Remo em Portugal que as zonas ribeirinhas são preferenciais para a prática desta modalidade, motivada pela falta de infra-estruturas desportivas em outras zonas do interior. Desde os primórdios do Remo até aos dias de hoje, que Lisboa, Caminha, Aveiro, Porto, Viana do Castelo e o distrito de Coimbra são os principais pólos aglutinadores desta actividade, muito devido ao elevado número de praticantes aí localizados.
Podemos verificar algumas diferenças entre as regatas que existiam no início do aparecimento do Remo em Portugal e actualmente.
Começando com o número de embarcações que participavam nas regatas, não havia sequer alguma comparação possível, uma vez que nos primórdios do Remo em Portugal eram apenas cerca de três ou quatro barcos que existiam assim como os clubes que iam às regatas. Mas existe um aspecto bastante apreciador, pois se falarmos na quantidade de espectadores que assistiam a estas provas, já muda tudo de sentido, pois em todas as regatas que se organizavam antigamente, mexia sempre com a cidade toda e arredores. Era uma romaria de tal forma que chegava-se a assistir a provas emocionantes e com muito mais espectáculo do que existe actualmente. Havia regatas que tinham na ordem dos milhares de espectadores a assistirem de fora e a torcer pela sua equipa.
A nível da divulgação que era feita para as regatas, apesar de antigamente ser muito divulgada, nomeadamente, pelos jornais, rádios, placardes espalhados nas ruas e cartazes nos estabelecimentos comerciais, ainda consegue ser muito mais divulgada do que há relativamente poucos anos. Hoje em dia é que já se vê um maior interesse e empenho pelos responsáveis do remo em Portugal para divulgar esta modalidade que tantas alegrias traziam ao povo português aquando a sua realização.
De referir um facto interessante em relação aos escalões dos atletas que participavam nas regatas, onde a transição de categorias não se fazia por escalões etários, mas sim pelo número de vitórias de cada tripulação, assim sendo, era possível ver um remador próximo dos trinta anos de categoria Júnior, por exemplo. Verificou-se também que os atletas iniciavam a prática do Remo por volta dos dezoito anos, no entanto, estes mantinham a prática da modalidade até depois dos trinta anos.
No que concerne às categorias, os atletas passavam de principiante para Júnior e deste para Sénior.
Actualmente, a distribuição dos atletas é efectuada consoante a sua idade, existindo categorias de Infantis, Iniciados, Juvenis, Juniores, Seniores e Veteranos (Masters). Nos Seniores, existe a subdivisão entre Ligeiros e Pesados, mediante o peso dos atletas. Todas estas categorias são divididas em masculinos e femininos.
Apenas existe uma regata da FPR para os escalões etários mais jovens, uma vez que, são as Associações de Remo Portuguesas, que organizam um calendário desportivo para o Remo Jovem.
A nível internacional, como os Campeonatos do Mundo e Jogos Olímpicos, assim como outras regatas internacionais, as distâncias são também de 2.000 metros, tanto para Juniores e Seniores, no que concerne a provas de velocidade.